quinta-feira, 29 de junho de 2017

"O Tritão"



Desta vez não faço nenhuma referência à Incrível (Romeu não tinha de falar da "Sociedade Velha" em todos os livros, mas sim a um passeio do escritor com a esposa e os netos, na página 160 de "O Tritão"...

«Há dias voltei ao Ginjal, na companhia da Almerinda e dos nossos netos, para uma romagem sentimental. Tanto o João Vasco como a Ana Margarida, ele com cinco anos e ela com dois, vinham movidos e deslumbrados pel aventura da pesca. Num prolongamento das histórias fabulosas – O Capuchinho Vermelho, A Gata Borralheira, A Branca de Neve… - os miúdos acreditavam pescar com a nossa frágil cana alguns animais marinhos, tais como golfinhos, polvos gigantes, tubarões e até baleias… A Almerinda, cheia de ternura e paciência pelos netos, vinha por vir, sabendo que nas águas poluídas do rio raramente se pescava um chamilro. Parámos junto da nossa antiga casa, escolhemos uma argola de ferro, minha companheira de tantas pescarias de outrora, e assentámos arraiais.»

É uma delicia...

sábado, 27 de maio de 2017

O "Trapo Azul"


Transcrevemos da "Apresentação da primeira edição do romance, "Trapo Azul", publicado em 1948, as palavras de Romeu Correia. Desta vez ele não fala da Incrível, mas de um grande Incrível, Alberto de Araújo, o patrono da nossa Biblioteca:

«Na pacata vila de Almada, que por esses tempos não ia além de trinta mil almas, passei ao papel uma longa história das pobres costureiras dos fatos de ganga para os operários, profissão-último recurso, sujeita à mais desenfreada exploração das mestras, que nalguns casos (por paradoxo que pareça!) eram mulheres ou filhas de… operários.
A falta de consciência de classe tem sido uma constante anti-revolucionária do povo português; a mentalidade pequeno-burguesa uma alienação, uma nódoa imperceptível, que alastra, traiçoeira, por todos os lados- A fome e o frio sofridos na carne não são vistos como uma flagrante e intolerável injustiça social a que devemos pôr fim. [...]

Outro amigo de quem desejei ouvir uma opinião sobre o texto foi o Dr. Alberto Emílio de Araújo, dois anos antes libertado do campo de concentração do Tarrafal. Professor liceal, de sólida cultura humanista, tinha uma perspectiva  marxista da sociedade como raros neste país. Militante do Partido Comunista Português, pertenceu ao seu comité Central durante anos. O regresso deste filho querido a Almada fora um acontecimento local do pós-guerra. Éramos vizinhos e amigos, por isso lhe pedi opinião sobre o meu manuscrito. Mas a sua frágil e conturbada saúde sofrendo crises sucessivas, tivera por essa altura uma das mais graves recaídas. E fora forçado a recolher-se ao Hospital dos Capuchos para extrair um rim. Com mágoa minha, o Alberto Araújo, só pôde ler o Trapo Azul., impresso, um ano depois.»

domingo, 30 de abril de 2017

"Cais do Ginjal" (e a Incrível...)


O "Cais do Ginjal" é uma das obras autobiográficas de Romeu Correia, romanceadas, mais interessantes do ponto de vista da história local, onde ele nos retrata a sua infância e adolescência, passadas no Ginjal, na casa dos avós paternos.

Fala de pessoas, de lugares, importantes, que acabam por fazer parte da história de Almada.

Trata-se de uma obra editada em 1989 pela Editorial Notícias.

Transcrevemos uma parte da obra em que este se refere à Incrível:

«Para toda a gente estar presente do Cais do Ginjal estar presente, até um homem, que cortara relações comigo há anos, me veio abraçar. Tratava-se do mestre tanoeiro Zé de Almada, que amava até às lágrimas a Filarmónica Incrível Almadense, e que se zangara comigo por eu teimar que, na História de Portugal, havia dois reis com o nome de Manuel. Para ele só havia um, que, por sinal, fora o segundo…»

domingo, 26 de março de 2017

"Os Tanoeiros! (e a Incrível...)


O Romance "Os Tanoeiros" é o livro da autoria de Romeu Correia que tem mais referências à Incrível Almadense, graças a uma família de tanoeiros, músicos e  associativistas da "Sociedade Velha", que foram escolhidas como personagens...

Transcrevemos da página 27 do romance:

 «O pai de Alfredo tinha uma vida repleta de afazeres, afora o tempo consumido pela profissão. herdara muito cedo essa norma de vida. Ganhara-a mesmo quando, catraio, vagabundeara pelas ruas da vila ainda sem o jugo das horas, que não fosse o vir a casa petiscar e dormir. E logo a Sociedade, a sua Incrível, o prendera de amores para todo o sempre. Um dia seria homem. com a arte de um ofício segura nas mãos, senhor de uma mulher e da filharada – mas, antes de mais, músico e carola da Incrível Almadense. E cumpriu-se o desejo. Mestre Gaspar ministrou-lhe solfejo, assentou-lhe os dedos no instrumento e fê-lo sair à estante. Tinha catorze anos, quase um fedelho de cueiros, e já fazia um vistão, fardado e de cornetim à boca. Estreara-se numa madrugada, dia primeiro de Outubro de 1908 – no 60.º aniversário da Música Velha

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Biblioteca da Incrível fez Parte do 1º Percurso do Roteiro Literário de Romeu Correia


Ontem mais de quatro dezenas de pessoas, entre professores, alunos da USALMA e gente anónima, interessada pela história de Almada, visitou a Biblioteca e o Espaço Museológico da Incrível Almadense, que fez parte do "1º Percurso do Roteiro Literário de Romeu Correia" (organizado pelas professoras Edite Condeixa e Ângela Mota).


A sala de reuniões foi o espaço escolhido para se trocarem impressões sobre a história da Incrível, através dos seus 14 livros já editados; sobre a edição do primeiro livro de Romeu Correia, "Sábado sem Sol", que contou com o apoio das Bibliotecas da Incrível e da Academia Almadense; e também houve espaço para uma pequena leitura das páginas do romance, "Os Tanoeiros", onde se homenageou uma das grandes figuras da Incrível (José Carlos Lírio) na personagem do mestre Damião.

Falaram da história da Incrível à interessada plateia, Alexandre Castanheira, Carlos Guilherme e Luís Milheiro.

Estamos certos que se os livros pudessem demonstrar o seu estado de espírito, tinham suspirado de alegria, por terem tantos visitantes, que os olharam e acariciaram com todo o carinho...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Sábado sem Sol", o Livro de Estreia de Romeu Correia


O "Sábado sem Sol" é a primeira obra de Romeu Correia. Trata-se de um livro de contos, com dez pequenas narrativas, que retratam parte da sua vivência no burgo de Almada.

Romeu explica muito bem a história deste livro no começo da segunda edição (Algumas Linhas Livres), que transcrevemos:

«Data dos fins de 1945 a minha crescente necessidade de passar ao papel várias histórias e figuras que povoavam o meu pequeno mundo. Testemunhar os problemas sociais, os conflitos de classe, os dramas humanos, revelando e condenando o mundo injusto e contraditório que nos rodeia e oprime, é a função primeira do contador de histórias. Foi o que fiz. Com alguma ficção para não irritar os patrícios, distanciei-me dos primitivos modelos utilizados, concluindo o meu livro no ano seguinte.»

E também escreve sobre a sua apreensão:

«Dois meses após a publicação, a PIDE procedia à apreensão do “Sábado sem Sol” (estímulo oficial tão frequente por esses tempos fascistas…), semeando o desgosto e a indignação na maioria dos meus leitores, e digo na maioria porque, inexplicavelmente, tristemente, houve, em Almada, quem, sentindo-se retratado nas páginas do livro, descesse à ignominia de me denunciar na sede da famigerada polícia política.»

É importante destacar que a receita desta primeira obra do Romeu foi oferecida às Bibliotecas Populares da Incrível e Academia Almadense.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O Centenário do Nascimento do Escritor Romeu Correia (1917 - 2017)


Este ano assinala-se o centenário de Romeu Correia, o principal escritor do concelho de Almada.

Romeu foi um grande amigo das bibliotecas populares de Almada, como se comprovou logo na edição do seu primeiro livro de contos, "Sábado sem Sol", em que agradecido pelo apoio, distribuiu parte dos lucros da sua primeira edição pelas Bibliotecas da Incrível e da Academia Almadense.

Devido ao seu talento como escritor e dramaturgo foi-lhe atribuído o diploma de "Sócio Honorário" da Incrível Almadense.

A forma que encontrámos para o homenagear é publicar uma pequena nota de leitura todos os meses sobre uma das suas obras presentes na nossa biblioteca.

(Fotografia de Luís Eme)